Os preparativos para uma das mais tradicionais manifestações culturais e religiosas de Caxias entram em um momento decisivo. A encenação da Paixão de Cristo, realizada há 52 anos no bairro Trizidela, está com seus ensaios intensificados, reunindo voluntários e membros da comunidade em um verdadeiro exercício de fé, dedicação e arte.
“Este ano eu recebi o convite da organização para fazer o papel de Jesus. Já estou bem familiarizado, já é o meu 11º ano. A Paixão de Cristo, a gente conta a história de um homem que se sacrificou pela humanidade, e a gente busca passar para a população ver o sofrimento de Jesus, tudo que ele passou para pagar os nossos pecados. Grande parte dos jovens faz parte da igreja e da comunidade e outros bairros”, disse José Gabriel, interpreta o papel de Cristo.
Os ensaios estão acontecendo no Adro da Igreja Nossa Senhora de Nazaré, onde os participantes ajustam falas, marcações de cena e expressões que dão vida aos momentos mais marcantes da história de Jesus Cristo. No entanto, no grande dia, a Sexta-Feira da Paixão, a encenação ganha as ruas, percorrendo um trajeto que segue até a Igreja de Santo Antônio de Pádua, no bairro Ponte, a partir das 18h.
“A população já espera o espetáculo. Há seis anos mudou de patamar, era apenas uma procissão que acontecia pela manhã, e agora estamos com a característica de espetáculo, que acontece à noite na sexta-feira da Paixão. E virou tradição aqui para os bairros da margem esquerda do rio. Nós fazemos todas as estações até a morte de Jesus. Eu participo há 22 anos, o meu pai é o mais antigo a participar. Eu comecei como soldado, fiz o papel de Jesus por seis anos, e agora estou como chefe da Guarda”, disse Alisson Breno, interpreta o Chefe da Guarda do Império Romano.
Durante mais de quatro horas de apresentação, o público acompanha a chamada “Via Dolorosa”, expressão que significa “Caminho da Dor”. Esse percurso representa os últimos passos de Jesus antes da crucificação, dividido em estações que simbolizam momentos importantes de seu sofrimento.
As estações da Via Sacra são, tradicionalmente, 14 momentos que retratam desde a condenação de Jesus até sua morte e sepultamento. Entre elas estão episódios como a condenação por Pôncio Pilatos, o carregamento da cruz, as quedas ao longo do caminho, o encontro com sua mãe, Maria, a ajuda de Simão Cirineu, e, por fim, a crucificação. Cada estação convida o público à reflexão sobre dor, injustiça, sacrifício e amor ao próximo. A prática da Via Sacra é uma oportunidade para os fiéis refletirem sobre o significado mais profundo da Paixão de Cristo em suas próprias vidas.
“Eu participo da Paixão de Cristo desde 2003. Eu comecei como discípulo, soldado romano, e depois me tornei o diretor do espetáculo. Hoje eu também faço o papel de Pôncio Pilatos. Desde 2002, mudamos para a noite, na sexta-feira, as pessoas estão com suas famílias durante o dia, e passamos a fazer à noite. É uma honra fazer a Paixão de Cristo. Jesus veio nos ensinar uma lição de amor e humildade, fraternidade para a humanidade. Nós continuamos relembrando esta história. O ato de sensibilidade social acontece a partir do momento em que reunimos pessoas da periferia, pessoas da comunidade, que amam o teatro e a arte. A partir deste momento trabalhamos o amor de Cristo que alcança todo mundo. Nós convidamos a população a estar conosco, a partir das 18h da sexta-feira da Paixão”, convida Mizael Franco, diretor do espetáculo.
A encenação da Paixão de Cristo em Caxias carrega um profundo significado espiritual e social. A mensagem central é de renovação da fé, empatia e esperança. Ao reviver o sofrimento de Jesus, os participantes e espectadores são convidados a refletir sobre valores como solidariedade, perdão e resistência diante das dificuldades da vida.
“É um momento de muita doação, eu sou dona de casa, sou mãe. E consigo trazer de forma muito pedagógica para os meus filhos o que foi a morte de Jesus. E fazer esse papel grandioso de Maria. E, por incrível que pareça, à medida que vai se aproximando, eu vou me sentindo leve, como se não fosse eu. Como se fosse o espírito dela dentro de mim. Porque Maria pede que a gente seja leve, calma e acredite sempre na palavra de Deus. Hoje eu consigo traduzir o que é o amor de mãe, depois que eu tive os meus filhos. Eu vejo Jesus naquela cruz, eu não vejo o Gabriel que está interpretando Jesus, eu vejo Jesus. É uma entrega muito grande”, ressalta Andreia Oliveira, interpreta Maria de Nazaré, Mãe de Jesus.
A cada ano, o evento reafirma sua importância tanto na tradição religiosa como também um forte elemento de identidade cultural da cidade, envolvendo gerações e mantendo viva uma história que ultrapassa o tempo e segue tocando o coração de todos que acompanham esse emocionante espetáculo a céu aberto.
“Eu tenho três anos na Paixão de Cristo. Eu entrei como Maria Madalena, depois Maria, Mãe de Jesus, e agora estou entrando como Cláudia, mulher de Pilatos. É um espetáculo muito importante, então o espetáculo mostra a história de Jesus. Jovens hoje em dia trazem o que os nossos antepassados querem representar para nós”, frisa Ana Kaline, interpreta Cláudia, esposa de Pilatos.
“Esse é o convite que fazemos, que também se junte ao nosso grupo, para que possamos ter esta corrente de fé, e símbolo de evangelização através da arte e do teatro. É a maior história da humanidade, que reúne jovens, crianças, idosos e pessoas que acreditam nesta história da morte, paixão e ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo”, destaca Jeverson Brito, interpreta Demônio e Herodes.